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domingo, 7 de outubro de 2012

She she pop

Dedicado a Demetrius, Marília, She she pop e seus pais e a tia do alemão, né? =D



Lá fui eu tomar um ônibus, dois metrôs e mais um fucking ônibus única e exclusivamente para ver uma peça de teatro. Dessa vez, julgo eu que por pura insistência da minha parte e consideração, bondade e curiosidade da parte deles, fui acompanhada de dois amigos.
A peça era uma curiosidade só: três atrizes, seus pais não autores, na língua alemã, com legenda. Atores e não atores? Legenda em peça? Ah, vamos ver no que dá!
Sesc Santana, sábado, 06 de outubro de dois mil e doze, sete e meia da noite: enquanto esperamos, falamos de nossas amizades, do gosto de pomada que tem creme de cupuaçu com farofa de castanha (invenção minha pedir coisas que nunca comi! =P) e de nossas expectativas com relação à peça.
Graça divina -ou algo parecido- que um dia alcançarei: trocar de língua (inglês« alemão) em segundos, só para pedir licença para o desastrado da frente (aeeewwww... tinha que estar em minha companhia! =DD).
Entramos. Não era hora ainda, então ficamos discutindo a decoração do lugar, a pintura de nossas futuras casas e a questão do ridículo no uso de armação de óculos patrocinada pela Chiquinha do Chaves e suas variantes, sejam elas coloridas ou não.
E abrem-se as portas! Achar o lugar não foi difícil... esperar todo mundo fazer o mesmo foi... AH, SE FOI!
Fase do acaso: Uma família alemã sentada na fileira de traz.
Frustração: Uma meia dúzia de três ou quatro palavras (Alô, Peri! Como vai você?) entendidas. Quem foi que disse mesmo que dava para aprender alemão em uma só encarnação? Scheisse*!
E começa a peça!
Confesso que achei tudo estranho no início: A peça era bem diferente de tudo o que já tinha visto.
Câmera, trompetes, legendas, quadros e as atrizes e os não-atores no palco. Não sabia para onde olhar! Queria me livrar da legenda e ver se ponha a prova os seis longos anos escutando alemão, mas não foi tarefa tão fácil assim (Cadê C1, minha gente!?!). Desencanei, no português já quase inapropriado para minha idade.
Falando nisso….
O tema da peça era conflito de gerações. Baseada em “Rei Lear”, ela trazia as já –tão- mencionadas três atrizes e seus pais discutindo os problemas da relação entre gerações diferentes.
Nome da peça: Testamento. Esse foi o ponto de partida para o início da discussão-peça que viria.
Conflito pessoal: era para ser uma comédia, não? Cadê o riso, minha gente?! Lá veio ele: um dos pais da peça, físico (Himmeeeeeellllllll! =D), começa a explicar a expressão do amor pelo pai para ganhar um terço do reino como herança na fala das filhas de Rei Lear, a peça original, usando um esquema, um gráfico e uma derivada da somatória da matriz... Ri muito! Para mim, um dos pontos altos da peça.
Conflito pessoal: era para ser uma comédia, não? Cadê o riso, minha gente?! Lá veio o posto a ele: Em uma duas falas mais comoventes da peça, o pai diz que não acha nada engraçado expor suas fraquezas e especificidades numa peça assim, do modo como estavam fazendo. Na outra, a filha diz todos os cuidados – e com que frequência- que deverá ter com seu velho pai, quando esse passasse a viver com ela e precisasse desses cuidados. Bastante tocante.
Entre danças, risos, dilemas e duetos, a peça acabou. Sobraram as discusses pós-peça, as lembranças, a noite, o vento e a caminhada para a estação de metrô mais próxima, já que não era nem um pouco seguro atravessar a avenida correndo e ir ao Habib´s mais próximo.
Sobrou também ligar para a geração anterior nos buscar...
And then I go and spoil it all by saying somethin’ stupid like “I Love you”. 



* Escrever o danado do "estzet" aqui é sempre um problema. Logo, achei melhor utilizar os dois esses que corresponderiam à letra alemã. 





terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O que eu aprendi sobre viagens

Alô você que lê essa coisa toda: Não, eu não dei para o blog o mesmo destino de seu endereço... AINDA!
O caso é que fui fazer uma viagem, que incorporaria as cidades de Tarrytown, Nova Iorque, Miami e Orlando. Aqui vai uma lista de pensamentos e conclusões que essa viagem me fez ter:


  • O ditado popular "Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento" vale para pessoas, instituições, cidades, estados e países.
  • Escolher uma viagem de acordo com seu perfil pode parecer uma besteira enorme, mas é extremamente necessário.
  • Planejamento economiza muita grana e paciência. 
  • Organização também economiza muita grana e paciência.
  • Paciência, muita paciência é necessária. MAS MUITA PACIÊNCIA MESMO!
  • Walgreens salva vidas em perigo.
  • 4 horas fazendo compras e 3 horas no Museu de História Natural...
  • É possível fazer amizades em um mês
  • Gingerale é a melhor bebida não alcoólica do mundo.
  • É possível fazer inimizades em um mês.
  • apesar do título de atriz, ainda não consigo disfarçar o contentamento. preciso trabalhar melhor isso.
  • Os espetáculos da Broadway merecem o nome que têm.
  • Washington foi a melhor parte da viagem. Queria ter tido mais tempo para os museus e lugares públicos que deixei de ver. 
  • Hard rock café é uma beleza, apesar de não venderem mais os coletes jeans.
  • Paciência, muita paciência é necessária. MAS MUITA PACIÊNCIA MESMO!
  • 4 horas fazendo compras e 3 horas no Museu de História Natural...
  • Esqueça todos os parques da Disney... o Busch Gardens é o melhor parque do mundo.
  • Esqueça seu medo de montanha russa. Ande sempre com o bando de fpd certo! suhuaHSAUhsaush! (ps: Esse fdp foi com carinho, pessoal!)
  • Para você cujo sonho é ter um golf: Isso é carro popular nos EUA. O negócio mesmo é Mustang, Camaro e Honda Civic.
  • As pessoas tem tantos eletrônicos que podem andar sossegadamente com eles pelas ruas. Ninguém se dará ao trabalho de roubar.
  • Para você que reclama do transporte público: O metrô de São Paulo é muito mais novo, limpo e confortável do que o de Nova Iorque.
  • Para você que reclama que eu como mal: se pudesse, daria para você uma passagem para o país onde os pequenos lanches tem mais que 500 calorias e são acompanhados por um "copinho" de 750ml, com direito a refil.
  • Paciência, muita paciência é necessária. MAS MUITA PACIÊNCIA MESMO!
  • 4 horas fazendo compras e 3 horas no Museu de História Natural... (vocês viram que eu fiquei feliz pra carapiiiiiiiiii com isso né?)
Classificação da viagem: Ruim.
Conclusão: Preciso de um outro intercâmbio para tirar a prova. Alemanha talvez?

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Acordar cedo, carregar tudo, viajar. Andar para lá, para cá. Sentar-me e me deixar levar.
Não era janela, mas eu podia esticar o pescoço e ver. Passeio curto à velocidade aceitável. Arranque and than....
Can't keep my eyes from the circling skies
Tongue-tied and twisted just an earth-bound misfit, I

Atrás da asa, consegui ver o céu aparecer, com suas nuvens que mais parecem algodão doce. Dá mesmo vontade de soltar o cinto, abrir a janela e simplesmente sair pulando por cima delas. Just like a child!
Tensão. Guardas... We are supposed to show a large number of documents.... Not so confortable...

Mais uma viagem. Desta vez, meus companheiros são a velocidade alta, as luzes e o céu de Miami. Speechless!

Now I´m here! It´s gonna be fun, fun, fun!

New York is fantastic!

Tan tan tan dam dam tan tan tan dam dam...

Times Square, Rockfeller Center, Grand Station Center, 5th Ave., real winter...

Tan tan tan dam dam tan tan tan dam dam...

sábado, 17 de abril de 2010

Mau demais, nas Catedrais!

Compromisso cumprido, saí sem rumo pela cidade grande, com uma sensação de alívio diferente. Não felicidade, alívio!
Onde será que acaba essa ponte? Andar por onde você não conhece? Se bem que é cedo ainda, não? Ah, vamos ver! Olha..... quanto ônibus lá embaixo! Deve ser um terminal.....
O que essa louca está gritando? A amiga dela não vai ouvir nunca! Que bom que o amigo dela lembrou-a disso! Obrigada, senhor!
Eu deveria ter dito isso, e mais isso, e mais isso. Chega, garota, você não disse! Fez o que pode na hora. Nada mais, nada menos. Eita...quando é que eu pensei que o acharia no meio de tanta gente?Que feliz!
Olha... eu vim por uma rua parecida com essa. Subindooooooo!
Bom dia!
Encruzilhada.... continuar a subir, virar a direita e subir a outra rua ou virar a esquerda e descer? Dane-se! Subir! 
Nossa... que prédio lindo! Bem que o Luís me disse que eu ia gostar daqui. Mas ele disse para eu vir no domigo, não em plena sexta feira.... Ops, que horas são? Nem deve ser nove... foi mais rápido do que eu esperava. Se eu soubesse disso, teria ido embora depois, para ver a aula no noturno. Ahhhhhhhh... à merda você e a aula! Já faltou mesmo, fique em casa! 
Subindo... Nossa, que prédio grande! O que será que é isso?... Ah sim, uma igreja. Nossa... é bonita!
Olha.... um franciscano na porta da igreja. Uoloko.... é o Largo São Francisco! Nossa.... é bonito, mas eu pensei que fosse maior... E nossa, é aqui? Que x isso!
Ai que bonitinho esse anjo! E que cara de sapeca! Um casal, ao que parece... blá blá blá.....Caraca, Álvares de Azevedo! Foi poeta, amou e sofreu na vida... Homenagem dos estudantes de Direito do Largo São Francisco. Porra, Álvarez de Azevedo.... foda!
Continuando.... direita sempre!
Nossa... que cheiro! Pessoas de terno... advogados... bem próprio! Arg... urina! Que horror!
Que prédio é esse? Olha, é a Saraiva! Entrou ou não? Ah... os estudantes de letras! Blá! Deve estar fechado. Tem um cara lendo lá dentro!
Semáforo vermelho.... Espere! Não vai fazer que nem aquela outra vez, porque não tem Karen para te gritar hoje, garota!
Será que já dá para atravessar? Bom, siga os que assim o fizeram!
Olha.... o teto de uma igreja.... acho que coheço essa! Já sei onde estou!
Bom dia, bom dia, bom dia... sorrisos! 
Eita, polícia! Documentos pedidos para dois caras suapeitos. Ai senhor, segura a bolsa!  Ai senhor, olha aonde você foi se enfiar. Andar por aí, onde não conhece? Ai como você é neurótica!
Eita, o que esse cara tá correndo, senhor? Ufa... nada de mais. Olha aonde você está, pessoa! Estranho seria se ninguém corresse!
Olhaaaa... um cabeludo! De que banda será aquela camiseta.... Arrrggg... não dá pra ver! Para de olhar, você vai ser roubada! Segura a bolsaaaaaaaa!
Oi, por favor, bom dia. Como eu faço para chegar na Estação da Luz? Nossa moça, você tem voltar para lá e... Não! Vai por aqui! Qual é a estação de metrô mais próxima? Ahhh... é a Sé...-por isso eu digo que você não tinha noção de onde estava, sua louca!- ... Mas você está a pé? Estou. Ah... mas então é melhor você voltar por ali e seguir sempre reto que você vai encontrar. Não.... dá pra ir para a Sé sim. Moça, você vai passar essa, daí você vai descer e virar para a direita. Que direita? Esquerda! Ela vai fazer assim, ó - aponta com o braço, segurando a vassoura- Não, é direita! É direita! Mas então, moça: você vai fazer o seguinte: não essa rua, a próxima, você vai descer e virar a direita e já está na estação da Sé. Muito obrigada!
Então fulana.... era direita! Não, esquerda!
Eita, mas será que elas vão ficar discutindo isso? Ráh, que engraçado! 
Passou uma, segunda rua, desci. Todo mundo andando depressa, que beleza! Nossa, que prédio será esse? Cheio de segurança!
Olha, a estação Sé. A primeira moça tinha razão, era direita!
Uou! É a Catedral da Sé..... eu sabia que conhecia isso! Entro ou não entro? Não estou fazendo nada mesmo, não tenho pressa.... Vou entrar! 
Subi as escadas, dando risada de um moço que estava, com um amigo, tirando foto na porta da Catedral. Entrei. Nossa, que lindo! Que grande!
Olhei tudo ao meu redor. Muito grande! Olhei a porta da Catedral. Pé altíssimo!
De repente, me senti mau. Me senti pequena demais diante daquilo tudo. Aquela coisa toda da Idade Média que eu tinha estudado me transcorreu as veias em instantes. Igrejas grandes para fazer com que as pessoas se sintam pequenas e procurem ajuda divina. Continuei andando. Havia algumas pessoas sentadas nos imensos bancos dispostos em três filas, também imensas. Peguei o lado direito da igreja e por ele transcorri toda a sua extensão. Os vitrais eram bonitos, mas muito grandes. Muito grandes mesmo!
Os confessionários, protegidos por correntes e no escuro da igreja pareciam pequenas jaulas de onde podeia sair, a qualquer hora, uma figura assustadora, só para me dar medo. E foi essa a impressão que tive percorrendo toda aquela extensão. Silêncio mortal contribuía para a tensão da cena. Pilares altíssimos, altíssimos!
Voltei, ainda pelo lado direito, até o final do corredor, em direção a porta por onde eu havia entrado. Parei meus olhos na caixinha de folhetos de missa. Logo após a famosa caixinha de contribuição, com a famosa inscrição 'Colabore com a manuntenção da Catedral'... De fato, ela está bem conservada. O segurança me olhando. Sorri. 
Olhei a minha frente, lado esquerdo da igreja. Barraquinha vendendo terços e outras coisas próprias do recinto. Muito próprio, pensei. Única interrupção do silêncio, por enquanto. Peguei o lado esquerdo e comecei a andar. Vitrais bonitos, mas grandes, muito grandes. Anjos de uma cor dourada que presumi que fosse ouro. Claro, é ouro. Isso explica os seguranças. Nossa, o senhor não está dando conta de cuidar nem da própria casa? Cômico, no mínimo! Pensei que essa igreja talvez nunca conseguisse ficar cheia. Também pensei como seria casar ali, quanto seria o aluguel dela para essa ocasião, se é que se alugam igrejas para isso. Nem namorado, quanto menos noivo ou marido!
Anjos dourados, maiores que eu, pareciam ser estátuas vivas, só esperando eu passar para se mexer e, com isso, me asustar. A realidade de suas formas era coisa a se achar de muita qualidade, de muita valia, fato! Vi depois que, incrustadas nas paredes, esculturas douradas do que pareciam, pelas roupas, serem pelo menos bispos da Catedral, sé é que não eram representações dos vários papas da Igreja. Também parecia que iam sair a qualquer hora das paredes, adquirindo nova vida.
Órgão sendo tocado. Ah, sim! Isso explica as pessoas sentadas. Missa em seu início. É mesmo... eu vi nosso amigo, o Cardeal- é esse o nome de quem controla a Catedral?- olhando um livro com um rapaz sentado do outro lado da igreja. Escolha de músicas, missa começando, claro! Mas isso não explica as duas pessoas que vi cochilando nos bancos, nem o cara que eu vi entrar rindo e falando algo alto do lado direito da igreja. Vai saber.....
Olhei mais uma vez: vitrais coloridos, grandes colunas, escadas imensas, incrições em latim que nem eu sabia o que significava, altar muito grande, muito grande mesmo, colunas grandes, muito grandes, imensas... e os seguranças. Sair daqui já! Sorri para o segurança e saí. Segui o ritmo de quem passava lá fora, me esquivando, ora para a esquerda, ora para a direita, com a mesma cara de alívio de antes, e desci.  
Estação da Sé. Moça, quer tirar foto, precisa de um endereço? Susto! Senhor, vi o Quasímodo na minha frente!Que maldade, garota! Não, obrigada! Dirijo me a escada. Moça, precisa de algum endereço? Não, já achei- aponto para a entrada da estação. Quer tirar uma foto? Não, obrigada. Outro rapaz, desta vez um afrodescendente encorpado. 
Desci as escadas e, depois de me perder nas indicações, coçar a cabeça repetidas vezes, como faço toda vez que me sinto confusa ou com muita raiva, e de perguntar como fazia para embarcar, achei a tal entrada e vi que não tinha mudado muito da que eu estava acostumada a pegar antes. Eu só tinha entrado pela esquerda. Olhar as coisas de outro ângulo... eu disse que gostava! Descendo! Esse caminho eu conheço de cor já! 
Saí no meio daquele povo todo. A cabeça fruto de vários sonhos, lmbranças, uma melodia. Passei a catraca, desci a escada rolante na lerdeza do mecânico em contraste com peso e a rapidez do Metal, cheguei até a plataforma de número cinco, com a famosa cara de má que me toma quando sozinha, a levar meu corpo de sobrepeso por toda essa coisa que se chama vida, por meio de passos, quando vi algo que me acordou e que me fez querer dormir para todo o sempre, amém!
Um senhor, ao me ver, levantou de onde estava sentado. Um jovem pediu a caneta emprestada e, ao ouvir o senhor dirigir a mim a palavra, fui logo dizendo um 'depois dele'.
Então percebi o que o senhor queria: ele queria que eu preenchesse a passagem dele. O senhor era analfabeto. 
Preenchi a passagem e dei as indicações ao senhor quando este, sozinho, entrou no ônibus.
Fiquei feliz por ter feito isso. Dizem que as boas ações enchem a alma de alegria e recebem a devida recompensa ao seu devido tempo, mas não pude deixar de pensar que mundo cão é esse que não dá à todos a dignidade do saber, muito menos as condições necessárias para que alguém possa se virar, sem dependência, dentro dele. E mais: qual é o risco/preço de se confiar em outras pessoas num lugar em que os honestos são tidos, para se falar o mínimo, como tolos? You know it´s sad but true... Sad, but true!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010


O mundo me deprime. O diesel custa R$ 1,98, o álcool, R$ 1,87 e a diferença entre a gasolina aditivada e a comum é de apenas um centavo. O posto tem o nome que provavelmente você já usou para descrever um coleguinha de quinta série desprovido, segundo seus padrões, tão confiáveis quando esses combustíveis, de inteligência. Talvez eu devesse colocar um plural nesse nome, mas isso me incluiria nessa rebordosa, e eu não decidi ainda se pertenço a ela.
As horas? Nem sei. Meu celular está sem bateria, só para variar. O céu está escuro, o que não me dá garantia alguma. O mundo me engana. É claro e já é tarde. É escuro e ainda é cedo. Pelo menos tenho ele para perguntar as horas. Eu queria outra coisa mas, o fato de eu perguntar as horas e ele responder, por enquanto, é suficiente. Ele me odeia, ele não me odeia, ele me odeia, ele não me odeia.... Eu o amo, eu não o amo, eu não o amo, eu o amo... É utópico, e é para sempre, como todas as utopias, quer morra seu idealizador, quer não. Que engraçado! Se o idealizador, que é mortal logicamente, não morre, para onde é que ele vai? Risível! Que horas são? Cinco para uma. Sinal de positivo.
...
Um gole dessa cerveja, quem é que me dará? Lá vem a lata! Que horas são? Uma e meia. Mais um sinal de positivo.
...
As pessoas andam, para lá e para cá. Eu estou vendo tudo. E elas andam. E me vêem também. Que horas são? Dez para as duas. Vocês vão ficar? Faces em dúvida. Bom, eu vou indo... tenho consulta aman... hoje cedo.
Vai pela sombra! Ela me acompanha, seja lá o que isso quer dizer.
As partículas branco-malévolas serão agitadas no ar livre, por moedas-plástico. Pela moeda-papel, penetrarão entranhas. A dúvida é somente quantas. Se é só a sua ou é a dele também. Me pergunto se deveria ter ficado. Talvez eu salvasse uma alma, talvez eu perdesse a minha. Enfim.....
Parto sem olhar para trás. E agora, a rebordosa é minha, comigo. A mulher-medrosa aguça todos os sentidos e agarra a bolsa, para não ser pega de surpresa. A mulher-forte diz que tudo isso é babaquice e que o melhor é mesmo andar. A adolescente salva-mundo depressiva corre, desesperada e em disparada, e talvez se atire na frente do primeiro caminhão que encontrar. A criança chora mais desesperada que a adolescente. A mulher-forte diz: ande! Dez, vinte, trinta, quarenta, cinqüenta metros, e a mulher-medrosa olha para trás. Talvez eu devesse ter ficado. Babaquice, diz a mulher-forte. A adolescente salva-mundo já foi dessa para melhor, e a criança ainda chora.
Alguém, lá dentro diz: vai doer só um pouquinho. E a faca é retorcida... Um pouquinho mais, um pouquinho mais. A criança chora. Babaquice, diz a mulher-forte.
Ao final, o que temos é a vitória da mais improvável: a criança. Chego a minha casa, tiro os sapatos que, assustadoramente, se assentaram perfeitamente aos meus pés. Tiro também tudo aquilo que antes era assentado ao meu corpo e que agora me aperta. Um camisão, por favor! E as lágrimas virtuais vertem, como se fossem seguras apenas pelas roupas justas.
A cama é o mais aconchegante que consegui. As lágrimas vertem, a luz apaga e o celular tem sua bateria de volta, assim como a dona, mulher-forte, apesar das outras. O bom é que tudo isso me dá o que escrever, pelo menos.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O mato

O relógio ainda não bateu a hora que corresponde ao infinito na posição vertical e o sol já ilumina tudo, deixando todas as coisas envoltas em uma espécie de névoa há muito deixada de lado, sem deixar de ser familiar, e eu já caminho.A cidade tem cheiros atraentes. Lembram a infância. Cheiro de boneca nova, da ração do meu cachorro, da coxinha do aniversário. Mas eu ainda prefiro o mato. Não há nada mais interessante do que ele. O mato sim é legal. Lá as cores são harmônicas, tudo está onde pelo menos eu faço idéia de que deve estar. O cheiro é cheiro de verde, cheiro de animal, cheiro de vida, de pó, de terra. Mas eu tenho medo do mato. Medo do mato e do vento. A combinação perigosa do mato e do vento.Mato é mistério, é aventura, é, no meu caso, superação. Ando pelo mato, me enrosco em folhas, galhos e gravetos. Quase caio de pedras falsas e, às vezes, tropeço nelas. Sinto o vento levar ao alto meus cabelos e tremo toda em face ao precipício a alguns passos de distância. Ao chegar ao topo, mais sensações. Pedra, mais vento, céu, sol. Agora são grãos e líquidos. Sensações gustativas. Grãos de soja, trigo industrializado e água, a grande, e futuramente mais cara, bebida do universo.Pedras, descanso. Risadas, fotos e o céu. O sol me atinge direto no rosto e a sensação é estranhamente gostosa. Deitada na pedra, a sensação de saber como é voar de lá de cima, sentida, muitas vezes, lá de baixo, é simplesmente esquecida. Não dá vontade de se jogar de lá. Dá vontade de deitar e esperar que o tempo mude, que passe, que me leve, como o vento leva as asas dos pássaros negros que me rodeiam. Revigorante. Mas calma! Essa é só a metade do caminho.Volto a andar. Mais árvores, mais galhos e folhas, mais terra, mais pó. O calor é grande e o sol parece cruel, mas a vontade é a maior e nem meu coração que parece sair pela boca por conta da escolha errada da cor das minhas vestes e por tanto esforço podem me fazer desistir. Parei mais uma vez, sentei. O branco das pedras era de uma ausência de conflito confortante. Deixei o cabelo ao vento junto com meus pensamentos e ouvi. Simplesmente ouvi a conversa ao meu redor (não estava sozinha!). Ri com eles e fiz poses para as fotos, únicas recordações concretas. Tirei algumas também.Voltei a andar. Ainda tinha que voltar a subir a montanha. Mais uma vez, o coração reclama, mas não quero dar tanta atenção a ele assim. É preciso subir a montanha. Parei, descansei. Conversa agradável, lembranças dos acontecimentos passados e de pessoas que não foram.Mais subida, mais estrada, mais fotos, mais conversas. Mais superação. Passar por caminhos nunca antes notados, embora vistos. Caminhos estreitos. Rua. Civilização. A cor destoante e a forma bruta das cidades. O excesso de informação, a barulheira de carros e motos. O sol nunca foi tão quente, talvez pelo adiantado da hora, talvez pelo fim do devaneio. Andei, andei mais um pouco. Agora faltava nada para chegar em casa.Andei mais. Encontrei uma amiga no caminho. Conversa agradável, coisa de mãe. Fotos do casamento do filho mais velho, meu amigo, em primeiríssima mão. Álbum recém revelado. Andei mais. Finalmente cheguei, sem antes passar pelo mato. Só mais um pouco, só para não esquecer como é. O mato, mil vezes o mato! Sagrado mato, sagradas sensações. Bendita seja a balbúrdia da cidade que me faz gostar do mato. Bicho-homem, bicho do mato! O que fica com tudo isso? Ficam as fotos, ficam as lembranças, fica o rosto queimado do sol, ficam aguçados todos os sentidos.