quarta-feira, 7 de julho de 2010

Hoje faz vinte anos que, vítima de uma doença cruel e ainda sem cura, morreu um dos maiores poetas dos anos 80. Para mim, junto com o grande Raul, também já falecido, e Humberto Gessinger- esse bem vivo!-, Cazuza completa o trio de grandes gênios, goste você ou não- não me importo... o blog é meu! ahushaushaushs.
Concordo com a mãe dele, que diz que ele foi um homem de imensa coragem, pois seguiu seus sonhos, fez o que queria e, mais importante do que isso, teve garra para assumir as consequências de seus atos. Isso até você, psicóloga maluca que acha que o caráter de sua filha mudará vendo um filme sobre um "inconsequente, marginal"- falo de um e-mail que recebi há algum tempo e que me deu uma revolta gigantesca-, terá que conosco concordar.
No mais, minha pequena homenagem ao grande Cazuza, com saudades daquilo que eu não pude ver e com a alegria de fazer parte de quem apoia a permanência de sua música e poesia por muito e muito mais tempo:

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Última fala da peça, portanto última fala da personagem:

"SÔNIA- Que é que se pode fazer, tio Vânia? Continuar vivendo (Pausa.) Nós vamos continuar vivendo, titio.Vamos atravessar uma fileira interminável de dias tediosos. E noites tediosas. Vamos aceitar com toda a paciência as provações que o destino nos impuser. Trabalharemos para os outros, agora, e mesmo quando formos velhos. Jamais descansaremos. Quando chegar nossa hora, aceitaremos a morte com resignação e, do outro lado, além da morte e além do túmulo, contaremos tudo o que sofremos, tudo o que choramos, tudo o que provamos de amargura... E Deus terá piedade de nós. Ai, querido tio Vânia, nós dois juntos conheceremos uma vida luminosa, feliz e harmoniosa. Teremos então a plenitude e olharemos as nossas desditas de hoje com um sorriso de ternura- e aí descansaremos. Eu acredito nisso, meu tio, acredito fervorosamente. Apaixonadamente... (Ajoelha-se diante dele, põe a cabeça nas mãos dele e fala com voz de cansada.) Nós descansaremos. (Tekéguinte toca suavemente.) Ouviremos os anjos e veremos todos os céus coalhados de estrelas como diamantes, e toda a maldade terrena, todos os nossos sofrimentos terrenos serão varridos pela misericórdia que cobrirá o universo. E a vida será pacífica, gentil e suave como um carinho. Eu acredito! Eu acredito! (Com o lenço enxuga os olhos do tio.) Pobre tio Vânia! Coitado do tio Vânia, está chorando... (Também chorosa.) O senhor não conheceu as alegrias da vida, tio Vânia, mas espera... espera um pouco. Nós descansaremos. (Abraça-o) Descansaremos. (O vigia noturno bate o mato lá fora. Maria Vassiliévna toma notas à margem do panfleto que lê. Marina tricota)
Nós descansaremos!"


(Tio Vânia- Cenas da vida do campo em quatro atos. Quarto ato, pp.147-148 Tradução de Millôr Fernandes.[sim, a referência tá fora das normas da ABNT e ainda por cima, incompleta!])

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Conversa de escadaria

Pés duplicados em passos sincronizados até o meio do corredor, virando à direita, descendo a escada:
- Nossa, como você está nerd, hein? Não imaginava você assim!
- Acontece, não é mesmo?
- É... Eu me peguei vendo vídeos de MMA esses dias...
- Eu não imaginava você vendo isso!
Fim da escada...

Uma alma é um mosaico de outras......

quinta-feira, 6 de maio de 2010

"As he spoke my spirit climbed into the sky
I bid it to return
To hear your wonderous stories
Return to hear your wonderous stories
Return to hear your wonderous stories"

Certo dia, li que nós éramos do tamanho de nossos sonhos. Sempre me perguntei se os sonhos realmente são medidas para se mensurar o tamanho de alguém. Hoje vi que isso é meio defasado.
Acabo de voltar de uma palestra de alguém que se tornou grande com um sonho simples e pequenino: devolver aos seus vizinhos as histórias de imigrantes que os ouvira contar.
Quando ouvi a história das histórias que ele ouvira, percebi que não só seu pequeno sonho foi realizado, como foi aumentado e transmitido a mim, paulista, sentada numa platéia, anos depois, sem nenhuma descendência de imigrantes russos e nem um traço de ‘gauchês’.
Fora o encanto que passei a sentir ao ouvir tudo aquilo, enfrentei a surpresa. Buscava respostas para as minhas dúvidas com relação ao trabalho de escritor. O que vi foi a simplicidade de um ‘não sei’ tão leve e tão confortador como seria uma resposta bem formulada e toda compostas de argumentos coerentes e coesos.
A literatura, segundo Moacyr Scliar, o membro da Academia Brasileira de Letras que só queria escrever para o bairro gaúcho em que vivia, é plena de emoção. E foi isso que vi hoje.
Não é fácil identificar a origem da vontade de escrever, muito menos a origem das histórias que se escreve. Elas são frutos da imaginação.
Eis aqui o médico: inspiração, segundo Moacyr, é fruto da segunda parte em que se divide a mente, o inconsciente. Eis aqui o escritor: inspiração é algo do inconsciente que abre a porta para o inconsciente, trazendo à tona toda nossa imaginação, toda a nossa fantasia. A literatura, então, é o inconsciente dando voz às nossas fantasias.
O escritor tem grandes ou pequenas idéias. A diferença dele para os outros é que ele sabe escrever. Ou seja, é preciso dominar uma técnica literária. Como se domina uma técnica? Simples, sendo leitor.
E o que se lê? Lê-se o que se quiser! Eis aqui o piadista: Se você quiser ler a lista telefônica, eu te direi que ela tem personagens demais...
E mais: o escritor, quando relê seus textos, quase sempre se incomoda com eles, nunca gostará do próprio texto. Sempre pensará que uma frase ou uma palavra poderia ser mais bem colocada, sempre achará erros.
A literatura é fruto de emoções, é veiculada por elas. E tudo isso numa história... tão simples, tão sublime!